domingo, setembro 18, 2005

"A voz rouca da cordeona

Você faz parte...

Este foi Paulo Santana quem trouxe. Paulo Santana é aquele jornalista muito querido aqui do Sul
cujo único problema se bem que grave é ser gremista.

"A voz roupa da cordeona
de Marco Aurélio de Campos

Brotei do ventre da Pampa
que é Pátria na minha Terra.
Sou resumo de uma guerra
que ainda tem importância.
*
E diante de tal circunstância,
Seigui os clarins farroupilhas,
E devorando coxilhas,
Me transformei em distância.
Sou do tipo que numa estrada
Só existe quando está só.
Sou muito de barro e pó.
Sou tapera, fui morada.
Sou a velha cruz falqueada
Num cerne de corunilha.
Sou raiz, sol farroupilha,
Renascendo estas manhãs,
Sou grito dos tachãs
Voejando sobre as coxilhas.
*
Caminho como quem anda
Na direção de si mesmo.
E de tanto andar a esmo,
Fui de uma a outra banda,
E se ainspiração me comanda,
Da trilha logo me afasto
E até semente de pasto
Replanto pelas vermelhas
Estradas velhas parelhas,
Ao repisar no meu rastro,
*
Sou a alma cheia e tão longa,
Como os caminhos que valham
Substituindo os espinhos.
Velhos e antigos afrontes,
Surgiram muitos, aos montes,
Nesta minha vida aragana,
Desta andanças veterana,
De ir descampando horizontes.
*
Sou briga de touros
No gineceu do rodeio.
Impropério em tombo feio,
Quando o índo cai de estouro,
Sou o ruído que o coruo faz,
Ao roçar no capim.
Sou o rin-tin-tin da espora
Em aço templado.
E trago o silêncio guardado,
Do pago dentro de mim.
*
Fazendo vez de oratório,
Sou cacimba destampada,
De boca aberta, calada,
Como a espera do ofertório,
Como vigia em velório,
Que tem um jeito tão seu.
Tem muito de terra...é céu,
Que a gente sente ajoelhando,
De mãos postas levantando
O pago inteiro para Deus.
*
Sou o sono do cusco amigo,
Dormindo sobre o borralho.
Sou vozerio do trabalho,
Na gerra ou na paz - sou perigo.
Sou lápide de jazigo
Perdido nalgum potreiro.
Sou manhã de caborteiro,
Cantando triste e chororna,
Um cantochão brasileiro.
*
Sou a graxa da picanha
Na bexiga enfumaçada,
Sou sebe de rinhonada.
me garantindo a façanha.
Sou voz grave de campanha,
Que nos lançantes se some.
Sou boitatá lobisomem.
Sou a santa ignorância.
Sou a santa ignorância.
Sou o índio sem infância,
Que sem querer ficou homem.
*
Sou Sepé Tiaraju,
rio Uruguai rio-mar azul,
Sou o Cruzeiro do Sul.
A luz guia do índio cru.
Sou galpão, carla. Sou xiru
de magalhânicas viagens,
Sem jamais sofrer sogaço.
Cresci juntando pedaços
De brasileiras coragens.
*
Sou Sepé Tiaraju,
Rio Urugua, rio-mar azul,
Sou o Cruzeiro do sul,
A luz guia do índio cru.
Sou galpão, charla,. sou xiru
de magalhânicas viagens,
Andejei por mil paisagens,
Sem jamais sofrer sogaço.
Cresci juntando pedaços
De brasileiras coragens.
*
Sou enfio o sabiá que canta,
Alegre embora sozinho.
sou gemido do moinho,
Num tom triste que encanta.
Sou pó que se levanta
Sou raiz, sou sangue, sou verso.
Sou maior que a história grega.
Eu sou Gaúcho, e em chega
Para ser feliz no universo."
*
A Revolução Farroupilha, ligada ao tempo das Charqueadas e da escravidão no Brasil, foi contra os impostos.
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