quinta-feira, setembro 29, 2005

Camelos também choram

Você faz parte...

Este texto recebi por e-mail de uma amiga e achei que tinha tudo a ver colocar aqui. Aí vai:

> > > "Camelos também choram"

> > >> > > de Affonso Romano de Sant'Anna

> > >Eu tinha lido que, lá na Índia, elefantes olhando o crepúsculo, às
>vezes,
> > >choram. Mas agora está aí esse filme "Camelos também choram".
> > >A gente sabe que porcos e cabritos quando estão sendo mortos soltam
>gemidos
> > >e berros dilacerantes. Mas quem mata galinha no interior nunca relatou
>ter
> > >visto lágrimas nos olhos delas. Contudo, esse filme feito sobre uma
> > >comunidade de pastores de ovelhas e camelos, lá na Mongólia, mostra que
>os> > >camelos choram, mas choram não diante da morte, mas em certa>circunstância> > >que faria chorar qualquer ser humano.
> > >E na platéia, eu vi, os não-camelos também choravam.
> > >Para nós, tão afastados da natureza, olhando a dureza do asfalto e a
> > >indiferença dos muros e vitrinas; para nós que perdemos o diálogo com
> > >plantas e animais, e, por conseqüência, conosco mesmos, testemunhar com
> > >aquela bela família de mongóis o nascimento de um filhote de camelo e sua
> > >relação com a mãe é uma forma de reencontrar a nossa própria e destroçada
> > >humanidade.
> > >É isto: eles vivem num deserto. Terra árida, pedregosa. Eles, dentro
> > >daquelas casas redondas de lona e madeira, que podem ser montadas e
> > >desmontadas. Lá fora um vento
> > >permanente ou o assombro do silêncio e da escuridão. E as ovelhas e
> > >carneiros ali em torno, pontuando a paisagem e sendo a fonte de vida dos
> > >humanos.
> > >Sucede, então, que a rotina é quebrada com o parto difícil de um
> > >camelinho
> > > Por isto, a mãe camela o rejeita. O filho ali, branquinho, mal se
> > >sustentando sobre as pernas, querendo mamar e ela fugindo, dando patadas
>e
> > >indo acariciar outro filhote, enquanto o rejeitado
> > >geme e segue inutilmente a mãe na seca paisagem.
> > >A família mongol e vizinhos tentam forçar a mãe camela a alimentar o>filho.]
> > >Em vão. Só há uma solução, diz alguém da família, mandar chamar o músico.
> > >Ao ouvir isto estremeci como se me preparasse para testemunhar um>milagre.
> > >E> > >o milagre começou musicalmente a acontecer.
> > >Dois meninos montam agilmente seus camelos e vão a uma vila próxima>chamar
> > >o> > >músico. É uma vila pobre, mas já com coisas da modernidade, motos,
> > >televisão> > > e, na escola de música, dentro daquele deserto, jovens tocam>instrumentos
> > >e> > >dançam, como se a arte brotasse lindamente das pedras.
> > >O professor de música, como se fosse um médico de aldeia chamado para uma
> > >emergência, viaja com seu instrumento de arco e cordas para tentar
> > >resolver> > >a questão da rejeição materna. Chega.E ali no descampado, primeiro coloca>o
> > >instrumento com uma bela fita azul sobre o dorso da mãe camela. A família
> > >mongol assiste à cena. Um vento suave começa a tanger as cordas do
> > >instrumento. A natureza por si mesma harpeja sua harmônica sabedoria. A
> > >camela percebe. Todos os camelos percebem uma música reordenando>suavemente
> > >os sentidos. Erguem a cabeça, aguçam os ouvidos, e esperam.
> > >A seguir, o músico retoma seu instrumento e começa a tocá-lo, enquanto a
> > >dona da camela afaga o animal e canta. E enquanto cordas e voz soam, a>mãe
> > >camela começa a acolher o filhote, empurrando-o docemente para suas>tetas.
> > >E> > >o filhote antes rejeitado e infeliz, vem> > >e mama, mama, mama desesperadamente feliz. E enquanto ele mama e a>música
> > >continua, a câmara mostra em primeiro plano que lágrimas desbordam umas
> > >após outras dos olhos da mãe camela, dando sinais de que a natureza se
> > >reencontrou a si mesma, a rejeição foi superada, o afeto reuniu num todo
> > >amoroso os apartados elementos.
> > >Nós, humanos, na platéia, olhamos aquilo estarrecidos. Maravilhados.
> > >Os mongóis na cena constatam apenas mais um exercício de sua milenar
> > >sabedoria. E nós que perdemos o contato com o micro e o macrocosmos>ficamos
> > >bestificados com nossa ignorância de coisas tão simples e essenciais.
> > > Bem que os antigos falavam da terapêutica musical. Casos de>instrumentos
> > >que abrandavam a fúria, curavam a surdez, a hipocondria e saravam até a
> > >mania de perseguição.
> > >Bem que o pensamento místico hindu dizia que a vida se consubstancia no
> > >universo com o primeiro som audível um Ré bemol e que a palavra só>surgiria
> > >mais tarde.> > >Bem que os pitagóricos, na Grécia, sustentavam que o universo era uma
> > >partitura musical, que o intervalo musical entre a Terra e a Lua era de>um
> > >tom e que o cosmos era regido pela harmonia das esferas.
> > >Os primitivos na Mongólia sabem disto. Os camelos também. Mas nós, os
> > >pós-modernos cultivamos a rejeição, a ruptura e o ruído.
> > >Haja professor de música para consertar isto!
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